Estupro, Brasil e Bom Senso.

Se você passa por uma pessoa na rua e ela está com um celular na mão, isto é motivo para assaltá-la? Se tem um casal homossexual na sua frente, isto te dá algum direito de agredi-los? Se você conhece uma pessoa de outra religião, existe razão para começar uma guerra? Porque então as vestimentas de uma pessoa seria motivo para julgá-la e determinar como se comportar diante dela?

Uma pesquisa feita no Brasil entre maio e junho do ano passado, mostrou que em 212 cidades, entre 65,1% dos entrevistados, 42,7% concordam inteiramente, e 22,4% concordam parcialmente com a frase: “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Diante da frase mal formulada da pesquisa, foi levantada a questão, após todo “auê”, que as pessoas não estavam necessariamente falando de agressão física. Não sei como foram abordadas as pessoas para responder o questionário, porém o intuito da pesquisa era saber a opinião do brasileiro no assunto violência doméstica e estupro, logo, entendo que alguma noção do que estavam respondendo as pessoas tinham, mesmo torcendo para eu estar errada e sonhar que tudo tenha sido um equivoco e realmente ninguém concorde com esta frase.

Independente do significado para a palavra “atacadas”, vítima não se enquadra no quadro de culpados. Entende-se que vítima é quem sofreu algo, físico, mental ou emocional ou todos. Agora me respondam, como uma pessoa pode ser culpada da ação de outra pessoa?

Quando li a pesquisa e comecei a acompanhar os protestos, me lembrei imediatamente da Marcha das Vadias, ação que teve origem no Canadá, onde em janeiro de 2011, após uma onda de estupros no Câmpus da Universidade de Toronto, o policial Michael Sanguinetti, convidado para orientar sobre segurança, disse que as mulheres poderiam evitar o estupro se “não se vestissem como vadias”. Essa fala gerou muita indignação e não demorou muito tempo para 3000 pessoas realizarem a primeira marcha na própria Toronto.

A manifestação já foi realizada em diversas cidades no mundo como Los Angeles, Buenos Aires e Amsterdã. No Brasil já acorreu em cidades como São Paulo, Vitória, Recife, Fortaleza, Salvador, Goiânia, Belo Horizonte, Brasília, Florianópolis, Porto Alegre, Londrina, Curitiba, entre outras.

O Movimento é o grito da mulher e do homem que apoia a causa contra a violência sexual. A manifestação luta contra a crença de que as mulheres são vítimas de estupro por causa de suas vestimentas, da vulgarização e da discriminação da mulher na sociedade.

Quando somos crianças aprendemos a dividir os lápis de cor, a emprestar o livrinho, a não bater no colega de classe e não gritar com os professores… Mas tem gente que cresce e esquece do básico. Não me lembro de ter sido ensinada a julgar a roupa da pessoa para resolver se vou emprestar meu caderno, ou olhar a cor de pele para ver se dou licença para passar, observar o sexo da pessoa para então escolher se falo bom dia, obrigada e por favor. Se alguém aprendeu assim, por gentileza que fale em que escola e em que casa, para que eu passe longe.

Ninguém precisa gostar da roupa da outra pessoa, do gosto musical, do corte de cabelo e do trabalho, pois somos realmente todos diferentes e existem sim os grupos de afinidade, mas não é por conta disso que se justifica a falta de respeito e agressão, seja ela em qualquer nível.

Ok, não concordo com a vestimenta de algumas pessoas, mas isto não me dá o motivo para agredí-las ou vulgá-las, pois são pessoas e merecem respeito. Esta pesquisa só comprova o nível intelectual, o padrão humano e social da população brasileira em formação, e a culpa disto é de 100% dos brasileiros.

É muita falta de argumento falar que as roupas são determinantes quando a assunto é estupro, até porque se realmente fossem, no Brasil, um pais conservador o próprio Carnaval já deveria ter sido banido, a televisão deveria ser paralisada e mais de 70% das músicas e bandas que vendem, seriam exterminadas.

Metade das mulheres vítimas de estupro ainda são crianças. No Rio de janeiro em 2012, das 4.993 vítimas de estupro do sexo feminino, 51,4% eram crianças e adolescentes de até 14 anos, em quase 29,7% dos casos, a vítima tinha relação de parentesco com o agressor. A roupa não interferiu em nada nestes casos, pois foram pessoas transtornadas e doentes que cometeram atos de violência sem motivo. Sem contar que existem homens que também sofrem este tipo de violência e não foram suas roupas que levaram eles a sofrerem a agressão.

Se uma pessoa estiver nua na sua frente, não existe razão para agressão sexual! A qualidade da sua educação, seu bom senso e seu grau de humanidade é que te fazem agir de uma forma ou de outra. A culpa e responsabilidade de nossas ações são exclusivamente nossas. Nós agimos, nós pensamos e nós respondemos pelos nossos atos! Estupro não é sexo, não é “nheco-nheco” e muito menos amor. Estupro é agressão física, dor e é crime. Suas boas ações e pensamentos sadios são o que melhoram o mundo. Ninguém merece a dor da violência, ninguém merece ser estuprado.

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