O Simbolismo na Quarentena – II

Imagem: O Pendurado – Arcano XII do Tarot BOTA

No texto anterior, foi apresentada a energia d’O Pendurado como a que nos motiva à contemplação, ao mergulho em nosso interior para reconhecer nosso Eu, a fagulha do Divino que habita em nós – sabendo que, para nos aproximarmos dela, precisamos nos afastar do nosso eu, a auto-imagem identificada com a existência material. O eu é a lenha sacrificada para fazer a[s]cender a chama do Eu.

Tanto causa como efeito desse movimento é a mudança de nossos pontos de vista. Precisamos expandir a percepção (de nós, de nossos valores, do mundo) para que nela haja espaço para o transcendente. E, uma vez ampliado nosso entendimento (de nós, de nossos valores, do mundo), retornamos à vida com maiores horizontes, tanto externos quanto internos. Veja a imagem do Arcano: o homem, habituado a perceber o mundo de cima para baixo, aceita a inversão de seu ponto de vista, observando-o de baixo para cima, revelando-lhe o que antes não poderia perceber. O que estava no ponto cego de sua visão torna-se óbvio; ele se torna ciente do que antes lhe era oculto. Ele preenche as lacunas que sequer imaginava que existissem em sua percepção – e a descoberta das lacunas, os pontos cegos, é a principal revelação do Arcano. Tudo o mais decorre disso.

Quando ele enfim sair de seu período de suspensão (sua quarentena pessoal), ele terá muito mais completa visão da realidade. Verá o que sempre viu; verá o que não via; verá o eterno contraste entre o que é visível e o que é invisível. Ele, seus valores e o mundo serão, dali em diante, outros. Nas palavras de Albert Einstein, “a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. E cito aqui um cientista pois o que a pesquisa científica faz é continuamente se plantar no limiar entre o conhecido e o desconhecido, repetidas vezes se colocando em suspensão para vislumbrar um quinhão a mais do Cosmos, para desvendar um novo segredo guardado pela Natureza. A contemplação é indispensável à Ciência.

Por isso, enquanto o momento contemplativo evoca a imaginação, é necessário que ela seja dirigida por um senso prático, racional e objetivo. Essa jornada começa com os pés no chão e conclui voltando a colocá-los no solo. Há, sim, um momento de se desprender da matéria, mas para saber como melhor agir ao voltar a ela. É o eu quem deixa para trás o mundo, para que então retorne o Eu. O cientista inicia sua trajetória colhendo dados da realidade que o rodeia. Quando encontra um limite à sua capacidade de compreensão, aí ele contempla, imagina, hipotetiza para descobrir as respostas – e sua mente é livre para mergulhar o quão fundo quiser em qualquer direção para fazer o que está invisível se tornar visível. Contudo, por mais longe que vá em suas suposições, deverá voltar à realidade: é dela que vem a pergunta, é a ela que se dirige a resposta. Por mais bela que fosse sua explicação de um fenômeno, se não correspondesse aos fatos, que utilidade ela teria? Como sua resposta contribuiria ao progresso, tanto o seu quanto o de seus colegas e de toda a Humanidade? Valeria a pena todo o seu sacrifício se dele resultasse algo menos do que a Verdade?

Vivenciamos o mesmo que o cientista toda vez que lemos um livro, assistimos a um documentário, fazemos um curso… Toda vez que estudamos algo novo, de forma geral – e isso decididamente inclui o estudo nossas percepções e seus limites. A Verdade que o cientista busca na Natureza exterior é o Eu que buscamos na Natureza interior. Uma Verdade que já existia, que nos era invisível e então é subitamente revelada. Uma Verdade que dá pistas de sua presença no cotidiano, que se faz ver com clareza apenas quando nos colocamos na suspensão contemplativa, e que só tem valor quando de fato engrandece o cotidiano individual e coletivo.

Você está buscando a Verdade?

Que Verdade você está buscando? O que ela ensina?

Uma vez concluído seu período de contemplação, como sua Verdade tornará melhor a Vida – a sua e as das outras pessoas?

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